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Sonho de consumo de dez entre dez políticos, a conquista do poder é obra de engenho e arte, empenho e artimanha, organização e aplicação eficaz de recursos, senso de oportunidade, estratégia adequada e depende, principalmente, da ação bem articulada de duas grandes forças: o exército Combatente e o exército de Ocupação.
A missão das tropas Combatentes é sair às ruas em busca de votos valendo-se de todos os meios e expedientes para conquistar, em um curto espaço de tempo, a simpatia e adesão do maior número de eleitores às propostas de seus candidatos. Vencida a eleição, comemoram a vitória e saem de cena, dando lugar a uma outra tropa, a de Ocupação.
Menos ruidosa que os combatentes, esse novo exército tem a missão de harmonizar interesses, conciliar expectativas, administrar egos inflados pela vitória, construir os alicerces para o novo governo com as armas do diálogo, a negociação, o planejamento.
Cabe-lhes, também, uma tarefa ainda mais sensível: encontrar o ponto de equilíbrio entre tudo o que foi prometido ao eleitorado e o que realmente poderá ser cumprido.
Repousa sobre os ombros – e cabeças – dessa tropa, a missão de impedir que as expectativas e as esperanças depositadas pelo eleitor no vitorioso não se transformem em frustração e rejeição e comprometam o futuro do governo e do governante.
As tropas de ocupação trabalham nos bastidores: atualizam dados, redesenham cenários, analisam nomes e possibilidades, investigam currículos, sondam pessoas, avaliam riscos e oportunidades. Tudo sob o manto do mistério e da discrição.
Antes do fim de dezembro, tudo precisa estar reavaliado, as propostas readequadas, as contas refeitas, as promessas revistas e os interesses atendidos e/ou contrariados.
Os primeiros reflexos dessa atuação podem ser vistos na mudança de tom nos discursos: do emocional de campanha para o da mais completa racionalidade. A mirabolância dos projetos que encantaram o eleitorado se despem do brilho com que foram apresentados e o apelo arrebatador do candidato se rende à frieza do administrador. Essa é uma história se repete em todo lugar. No gigante e poderoso Estados Unidos ou no menor e mais pobre dos municípios brasileiros.
Agora mesmo, enquanto que você lê esse artigo, os exércitos de Ocupação trabalham duro, mapeando espaços, confrontando dados, planejando cortes, reajustes, reformas, tudo para adequar expectativas e promessas ao minguado orçamento das prefeituras.
Se antes era o medo da derrota que aterrorizava o candidato vencedor, esse temor não se dissipou com a consagração das urnas. Só mudou de objeto e deu lugar a uma preocupação não menos importante: a indicação dos nomes que ocuparão os cargos estratégicos do novo governo e a escolha dos projetos que serão prioridade.
A luta, agora intestina, não é menos intensa do que a travada durante a campanha eleitoral. A disputa em torno de espaço e prestígio por aliados e interessados, tem ocupado a agenda, a cabeça e o coração dos novos governantes e as dúvidas lhe assoberbam: manter quem e o que ou promover uma operação terra arrasada? Concentrar ou compartilhar o poder e com quem? Como resistir a tanta pressão, de amigos, correligionários, familiares e de tantos interesses?
O medo de desagradar aliados, de frustrar expectativas, de ser injusto com quem lhe foi leal, de errar na escolha dos nomes de sua equipe é absolutamente natural, principalmente nos governantes de primeira viagem. Vencer essa nova batalha é fundamental na construção de um projeto de governo. A diferença é que agora, o sucesso dessa empreitada depende somente da vontade e das decisões do próprio governante.
Ciro Pedroza - Jornalista