Conhecido internacionalmente pelas viagens solitárias cruzando oceanos e percorrendo rotas muitas vezes impossíveis de se imaginar serem realizadas, o navegador paulista também trabalha em terra firme, seja na empresa Amyr Klink Projetos Especiais, onde constrói barcos e veleiros sob encomenda, ou realizando palestras onde trata de assuntos como planejamento estratégico, gerenciamento de risco, qualidade e trabalho em equipe ou simplesmente o relato de suas aventuras pelos mares a bordo do veleiro Parati.
Durante a abertura da 12ª Convenção do Comércio e Serviços do Rio Grande do Norte, o navegador que foi convidado para ministrar a palestra “Procura-se talentos”, deixou bem claro que não acredita na premissa que se “nasce talentoso”. Para Klink, o talento é possível a qualquer pessoa, desde que se ofereçam as condições necessárias ao seu desenvolvimento. E essa possibilidade ele só enxerga de uma forma: numa educação de qualidade.
Numa conversa com a imprensa, Amyr disse acreditar no potencial notório do brasileiro que precisa sim, ser valorizado e capacitado através de uma escola onde se ofereça oportunidades de criação. Ele conta que procura pessoas sem nenhuma perspectiva de futuro e treina na sua empresa, na construção de barcos e a maior recompensa é encontrar depois de três ou quatro anos, essa pessoa trabalhando em países como a China, recebendo um salário equivalente a de um médico de renome nacional. No trabalho que evita ser tachado de “social”, Amyr oportuniza aprendizado para alcoólatras, drogados e moradores de rua.
Para exemplificar seu pensamento, Amyr lembra o sistema de funcionamento da rede americana de fast food, McDonald’s. “Não gosto do McDonald’s, do setor produtivo dos Estados Unidos, mas eles valorizam a função de cada pessoa numa empresa”, quando estabelece que todos os funcionários precisam passar por todos os setores e funções para que possa aprender e valorizar a atividade do outro, ou seja, um gerente compreende o trabalho e sabe executar as funções de um copeiro. Nesse processo para o navegador, o respeito mútuo se estabelece sem uma gestão autoritária.
CAMINHO ERRADO
Com a vivência de quem percorre e conhece inúmeros países, o navegador afirma que o Brasil está caminhando na contramão principalmente no que se refere à escola (pública e privada) e a qualidade do ensino oferecido hoje. Ele afirma que é necessário um planejamento de pelo menos 50 anos e enfatiza que o individuo que não sabe falar pelo menos três línguas vai num futuro próximo ficar fora do mercado de trabalho. Ele disse que não compactua com essa premissa de que o “o país é pobre”, pois pobreza se encontra em lugares como o Oriente Médio e o “cinturão” africano e lamenta o crescimento desordenado do Brasil e a ineficiência dos serviços públicos. No entanto, acredita que essa situação possa ser revertida com um planejamento organizado do Governo para a educação e a qualificação profissional.
Ainda na linha de que ninguém nasce com talento, e sim com oportunidades, o navegador surpreende ao afirmar que o país perdeu “talentos” para o crime como Fernandinho Beira-Mar e Salvatore Carciola, que desenvolveram o talento de administrar “verdadeiras empresas” num submundo totalmente desorganizado.
NADA CAI DO CÉU
Afirmando que a questão financeira não é o principal eixo da sua vida, Amyr Klink disse que “se tivesse focado minha fica em ganhar dinheiro eu teria fracassado”, ressaltando mais uma vez a necessidade da dedicação e a “entrega da alma” no que se propõe a fazer. “Condeno o profissional que executa sua atividade apenas pensando num salário ao final do mês. É preciso ter algo a mais”. E num pensamento lógico, afirma que o dinheiro é apenas o resultado da dedicação ao trabalho. “Nada cai do céu. Não adianta achar que se ficar em casa esperando Deus vai mandar”, citando a importância de sair à procura e estabelecer metas.
Publicado no O Jornal de Hoje, Caderno de Economia, 31 de maio de 2008.